A arte de procrastinar

São as 02:35 da madrugada de quinta para sexta e cá estou eu acordado tentando me convencer que vou só ler mais uma tirinha do PHD Comics, ver mais um capítulo de Seinfeld, dar mais uma passadinha rápida pelo Facebook, assistir a mais uma palestra do TED… E depois vou voltar à tese doutoral (wannabe). Há uma palavra muito conhecida no meio acadêmico para isso: procrastinação. E agora também devo adicionar escrever aqui no blog à lista de atividades procrastinativas, se é que esse é o adjetivo correto – talvez eu devesse buscar no dicionário1

Todo esse ócio criativo começou com uma matéria no Le Monde sobre um livro recém-lançado que se chama Carnets de thèse (por 19,90€ na Amazon Francesa), da escritora e cartunista Tiphaine Rivière (ex-doutoranda em Letras com mestrado em Cinema e graduação em História). O título do artigo, “Dans l’enfer de la thèse”, chamou muito a minha atenção – afinal de contas, esse é um tema com o qual eu tenho uma ligação muito forte. E lá estava eu buscando uma desculpa para não escrever nada…

Meter-se a escrever uma tese é um trabalho muito solitário e é sempre reconfortante saber que há outros como você por aí. Tenho certeza que seria um grande sucesso se houvesse um grupo de suporte a doutorandos nas universidades para que os investigadores pudessem compartilhar suas penas e dores. “Oi, meu nome é Raul e eu escrevi dois parágrafos hoje.” e todos diriam “Oi, Raul!”. Porque seríamos viciados em bolsas, publicações e simpósios, sempre tentando escrever alguma coisa nova, mas sempre com a sensação de que não sabemos nada, de que alguém em algum outro lugar já pensou isso que você está tentando escrever e ou já publicou ou já viu que não dá certo ou, o pior de tudo, que é realmente muito inútil.

O natal de um doutorado... - "Carnet de thèse", de Tiphaine Rivière.

O natal de um doutorado… – “Carnet de thèse”, de Tiphaine Rivière.

Lendo algumas das tirinhas que figuram na reportagem sobre o livro da Rivière, eu me vi em muitas das passagens. A incompreensão que paira sobre todo mundo quando você diz que está há 5 anos ruminando um trabalho que ninguém entende muito bem para que servirá. O pessoal pergunta quando você vai terminar e você fala “um dia” e eles dizem para você terminar logo de uma vez e você diz que não é tão simples assim e eles saem resmungando que quão difícil pode ser um trabalho de escola? E ainda há quem viva perguntando o que você vai fazer depois do doutorado, porque tudo nessa vida tem que ter um fim concreto e palpável e você tem que começar a ganhar dinheiro e parar com esse trem de estudar tanto e arrumar um emprego fixo e comprar uma casa e casar e ter filhos…

Lendo o artigo do jornal francês, eu me lembrei de um site que eu gostava demais da conta quando estava completamente imerso nas escritas doutorais.

Diferenças no nível de motivação no domingo à noite e na segunda de manhã. - PHD Comics, por Jorge Cham.

Diferenças no nível de motivação no domingo à noite e na segunda de manhã. – PHD Comics, por Jorge Cham.

Chama-se PHD Comics e fala da vida de diversos doutorandos e suas vidas dedicadas à pesquisa, à busca por bolsas e à esperança de ser publicado. Fazia tempos que eu não lia nada das tirinhas do Jorge Cham (doutor em Engenharia Mecânica por Stanford) porque dava aquele sentimento esquisito de meio ter abandonado a tese doutoral (wannabe). Ontem à noite, contudo, entrei no site e relembrei algumas e até assisti outra vez ao filme que ele produziu baseado nos seus cómics – o primeiro filme que eu comprei na vida! O filme não é nenhuma obra de arte… Os diálogos são, muitas vezes, bem forçados e os atores são alunos da oficina de teatro da Caltech – a mesma universidade onde trabalha o pessoal de “The Big Bang Theory“. As situações, ainda que muito voltadas para o mundo das Ciências Exatas, traduzem muito bem as agonias e pequenas alegrias do mundo acadêmico de maneira geral. É bem legal. Filmes destes nos quais você se vê refletido e acaba refletindo sobre a sua vida.

E cá estou eu, já na manhã de sexta-feira, sem ter escrito nenhuma linha da danada, sem ter lido nenhum dos textos que eu tinha me programado para ler hoje, só relendo tiras do PHD Comics ou conhecendo as do Le Bureau 14 de la Sorbonne, o blog da Rivière que deu origem ao livro. E também vi que a atriz principal do filme do PHD Comics, Alex Lockwood, já deu até palestra no TED! Ela fala sobre como devemos pensar fora da caixa, como devemos tentar novas soluções para novos problemas, como devemos usar coisas que já sabíamos para resolver obstáculos diferentes… E que, principalmente, devemos acreditar em nós mesmos. E isso me fez lembrar da minha tirinha favorita do PHD Comics:

I am a writing God! – PHD Comics, por Jorge Cham.

I am a writing God! – PHD Comics, por Jorge Cham.

Espero ter esta sensação hoje mais logo. 😉

 

1: Segundo o Priberam, o correto é “procrastinatório“.

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