A semente da auto-destruição

Ainda estou no começo do blog e pensei que talvez fosse interessante falar um pouquinho de dois autores que eu considero essenciais para os estudos do Turismo. Na verdade, e mais especificamente, são dois artigos que eu sempre repito exaustivamente para todos que me ouvem falar do Fenômeno1. O primeiro deles é o Why destinations areas rise and fall in popularity, de Stanley2 Plog (1974; 2001), e o segundo é o The concept of a tourist area cycle of evolution: Implications for management of resources, de Richard Butler (1980). Os dois textos são imprescindíveis, fundamentais para entender o Turismo como campo de estudo – como desculpa para conhecer novos lugares, novas pessoas, novas experiências, não precisa ler não: é só sair por aí.

O mais antigo, de Plog, foi escrito numa época em que ainda muito pouca gente viajava de avião. A empresa dele, naquele então, foi contratada para entender o porquê disso e como fazer com que as pessoas subissem naquelas latas de metal que desafiam o senso comum e saem flutuando por aí. Ele chegou a uma das melhores definições sobre as tipologias de turistas que eu já vi. Ele fez um gráfico cujo lado direito está dominado pelos Confiáveis3 (psicocêntricos, na nomenclatura de 1974) e o esquerdo, pelos Aventureiros4 (alocêntricos, no primeiro artigo). O meio do gráfico, a normal, está povoada pelos Mesocêntricos5 (esse nome não mudou nas duas versões) e é o grupo mais numeroso – como próprio autor comenta, apenas 2,5% das pessoas fazem parte do primeiro grupo e 4%, do segundo (2001, p. 17).

gráfico do plog

gráfico do plog

As características de um e outro grupo são – como é de se esperar – diametralmente distintas. Em resumo, os Confiáveis tentam levar uma vida diária predizível e confiável, enquanto a dos Aventureiros envolve assumir pequenos riscos cada dia (op. cit., p. 15). É importante, contudo, entender que, obviamente, a imensa maioria se move no meio do gráfico e tem um tiquinho de cada um.

Os destinos, por sua vez, começam suas vidas atraindo um certo tipo de turista – geralmente os Aventureiros – e vão se deslocando pelo gráfico em direção à esquerda à medida que o Turismo vai se desenvolvendo – sempre da direita para a esquerda (op. cit., p. 19). As mudanças nas características dos turistas são concomitantes às mudanças nas ofertas do destino e isso acontece de maneira natural para os mais diversos locais turísticos. Segundo Plog (op. cit., p. 18), “a maioria dos destinos segue um padrão de desenvolvimento predizível, mas incontrolável, desde o seu nascimento até a maturidade e finalmente à idade avançada e ao declínio. Em cada momento, destino atrai um grupo psicográfico de turistas diferente, que determina o seu caráter e sucesso”6.

Butler faz grande deferência ao artigo de Plog, subscreve à teoria dele e vale-se de outros grandes autores para corroborar a ideia de que há algumas tipologias de turistas que seguem padrões relacionados ao nível de desenvolvimento de um destino. Como exemplo, cito o meu estimado Cohen (1972) que trata os viajantes de “‘institucionalizados’ ou ‘não-institucionalizados’, e mas além em ‘andarilhos’, ‘exploradores’, ‘turistas de massa individuais’ e turistas de massa organizados'”7 (Butler, 1980, p. 6). Contudo, seu trabalho se centra nos destinos e traz a ideia de que o Turismo não é nem de longe a panaceia (muito alardeada na gestão pública e na Academia). Neste momento, o autor cita a um artigo de Plog de 1974 (!!!) que diz que “os destinos carregam com si as sementes potenciais de sua própria destruição no sentido de que eles mesmos se tornam mais comercializados e perdem suas qualidades com as quais originalmente atraíram turistas”8.

gráfico do butler

gráfico do butler

O (que deveria ser) famoso ciclo de vida dos destinos de Butler diz, grosso modo, que, num primeiro momento, o crescimento turístico é lento. À medida que novos turistas chegam (atraídos por depoimentos daqueles aventureiros que o descobriram), o Turismo atrai mais investimentos, o boom acontece e a capacidade de atrair cresce mais que o crescimento no número de turistas realmente atraídos. Contudo, isso não dura para sempre (no hi ha res etern!9), chega um momento em que o número de turistas já não cresce tanto e o destino se estabiliza. Aqui, Butler avista 5 possibilidades para o destino: um novo desenvolvimento bem sucedido (a); pequenos ajustes – principalmente em capacidade – que garantam um crescimento mínimo (b); ajustes que deixem o destino operar com a capacidade que tem numa estagnação com pequeno descenso prévio (c); contínua exploração e não-adaptação dos serviços que levará a um descenso agudo no mercado (d); ou algum evento catastrófico que irremediavelmente levará o Turismo ao fracasso na localidade (e).

A principal ideia que pode-se apreender do texto de Butler, no entanto – até mais que sua teoria do ciclo de vida do destino – é que o Turismo não é um recurso infinito, facilmente renovável. “A presunção de que as áreas turísticas sempre permanecerão turísticas e atrativas parece estar implícita no planejamento turístico”10 (op. cit., 10), disse Butler, que completa mostrando que “atrativos turísticos não são infinitos e intemporais, mas devem ser vistos e tratados como recursos finitos e possivelmente não-renováveis”11 (op. cit., p. 11). O Fenômeno precisa ser constantemente controlado, estudado e adaptado para que possa continuar sendo explorado.

Nas minhas experiências acadêmicas e na gestão pública (e o Butler concorda comigo na p. 10), tenho percebido que os conceitos aqui mostrados não são sempre levados em conta. Eles são básicos para quem se aventura a estudar o Fenômeno e não podem ser deixados de lado em nenhuma decisão, seja na política pública, seja na pesquisa, seja no planejamento privado. Os destinos, atrativos e serviços devem entender muito bem a que público se dirigem e em que estado do ciclo de vida estão para poderem adaptar-se às necessidades daqueles e aos desafios deste. Ao negar as tipologias de turistas e suas características ou os momentos do seu desenvolvimento, destinos, atrativos e serviços regam a sementinha da auto-destruição.


1: A menos que se explicite o contrário, “fenômeno” refere-se ao “fenômeno turístico”.
2: Eu sempre penso em Stanley Kubrick quando leio o nome inteiro do Plog.
3: No original: “Dependables” (Plog, 2001) e “Psychocentrics” (Plog, 1974) – tradução minha
4: No original: “Venturers” (Plog, 2001) e “Allocentrics” (Plog, 974) – tradução minha
5: No original: “Mid-centrics (Plog, 2001; 1974) – tradução minha
6: Tradução minha de: “Most destinations follow a predictable, but uncontrolled development pattern from birth to maturity and finally to old age and decline. At each stage, the destination appeals to a different psychographic group of travelers, who determine the destination’s character and sucess” (Plog, 2001).
7: No original: “Institutionalized”, “Noninstitutionalized”, “Drifters”, “Explorers”, “Individual mass tourists” e “Organized mass tourists” (Butler, 1980) – tradução minha.
8: Tradução minha de: “Destination areas carry with them the potential seeds of their own destruction, as they allow themselves to become more commercialized and lose their qualities which originally attracted tourists” (Plog, 1974).
9: “Não há nada eterno”: parte da letra da canção ‘Tornaràs a tremolar’ da banda catalã Mishima – letra aqui e vídeo aqui.
10: Tradução minha de: “The assumption that tourist areas will always remain tourist areas and be attractive to tourists appears to be implicit in tourism planning” (Butler, 1980).
11: Tradução minha de: “Tourist attractions are not infinite and timeless but should be viewed and treated as finite and possibly non-renewable resources” (Butler, 1980).

 

Referências:

Butler, R. (1980). The concept of a tourist area cycle of evolution: Implications for management of resources. Canadian Geographer, (XXIV, 1), pp. 5-12.
Cohen, E. (1972). Tward a Sociology of International Tourism. Social Research, (vol 39, n 1), pp. 164-182.
Plog, S. (1974). Why destination areas rise and fall in popularity. Cornell Hotel and Restaurant Administration Quarterly, (14, 4), pp. 55-58.
Plog, S. (2001). Why destination areas rise and fall in popularity. Cornell Hotel and Restaurant Administration Quarterly, (42, 3), pp. 13-24.

One comment

  1. […] citando os conceitos de Plog (1991, apud idem e que vocês podem relembrar num outro post do blog aqui) e Cohen (1995, apud idem), Litvin conclui […]

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