As cafonices do turismo

Eu não sou muito afeito a programas de turismo1. Eu os acho previsíveis, estereotipados, repetitivos… Cafonas, enfim. Ontem à noite, contudo, uma grande amiga minha recomendou que eu visse um dos capítulos da série “Anota Aí”, apresentada pela Titi Müller, que tinha como tema 10 Programas Cafonas Obrigatórios. Fui ver porque era indicação da Sabrina – e não me arrependi!

Este episódio foi o primeiro da segunda temporada e segue a mesma lógica da primeira: a equipe viaja por diversos lugares turísticos ao redor do mundo e faz diversas listas de coisas para fazer nestes lugares. A lista de atividades cafonas compulsórias incluiu ir ao Madame Tussaud’s de Londres, a comer num quiosque de linguiças em Viena, a nadar com golfinhos em Angilla, a subir as Torres Gêmeas Petronas em Kuala Lumpur, a passear no Jumbo Kingdom em Hong Kong, a fazer selfies com Fernando Pessoa em Lisboa, a visitar a casa de Elvis Presley em Memphis, a escalar o IAMsterdam em Amsterdã, a navegar nas sampas num shopping de Singapura e mais uma atividade numa cidade que eu não me lembro.

Eu pensei, então, que o programa era uma desculpa excelente para eu falar um tiquinho da minha dissertação de mestrado. Nela, eu dedico uma pequena parte2 a falar de como o turista viaja, na verdade, para reconhecer – e não parar conhecer, como muitos gostam de pensar. Eu tentarei expandir esses pesamentos na tese doutoral (wannabe), mas acho que consegui resumir direitinho naquele texto ainda de 2008. Eu estive relendo e gostei bastante, então vou só postar aqui abaixo a versão traduzida ao português.

* * *

Reconhecer a cidade

Nuria Galí Espelt e José Antonio Donaire Benito, falando das imagens que os turistas têm antes de deixar a sua cidade de origem, contam que

estas imagens são normalmente a essência da experiência turística. Os turistas são viajantes antes da viagem. Os turistas já visitaram o lugar antes de visitá-lo. Já passearam pelas ruas, visitaram a catedral e entraram no castelo. Por isso, frequentemente, os turistas não conhecem um espaço, senão que o reconhecem (Galí & Donaire, 2006, p. 124).

Pode-se relacionar tal definição com o turista de listar-e-riscar de que fala Erik Cohen (2001, p. 376). Contudo, não há que se pensar que o turista psicocêntrico/Confiável (Plog, 1974; 2001) é o único que viaja marcando o guia turístico que traz no bolso. Jea-Didier Urbain (1993, p. 28) já dizia que “não é tão clara a diferença entre o turista e alguns viajantes do século passado”, que muitos considera ser o verdadeiro viajante.

Tamanho listar-e-riscar não é assim porque sim. Como bem disse Nelson Graburn (1989, p. 33), “ainda que se considere a viagem como voluntária, auto-interessada, a viagem tem que ser moralmente justificada pela comunidade de origem (…)”. Assim o justifica François Camuset (1975, p. i) quando disse que “tudo passa como se cada um, visto que eles buscam se divertir, querem ir, ao mesmo tempo, ao mesmo lugar”.

As pessoas têm que justificar a sua viagem aos que sabem que a fizeram. Contudo, para que os amigos que ficaram em casa têm que saber por onde o turista passou, que monumentos viu, que comidas provou, que caminhos percorreu. Para que o turista possa provar-lhes que realmente viajou, que realmente passou por um ritual de peregrinação, tem-se que fazer fotos dos lugares que todos conhecem, que todos saibam serem válidos de uma visita. Como na Academia, referências são muito necessárias e elas vêm geralmente em formas de guias. Se está no guia turístico, merece uma foto. Se não está ali, ninguém na origem conhece e não vale a entrada. Como disse Jost Krippendorf, “quase todos participam do movimento, imaginando que o fazem livremente, mas a aparência é de alguém que obedece a uma ordem” (2001, p. 13).

Peter Berger, Brigitte Berger e Hansfried Kellner (1979, p. 10) comentaram sobre o conhecimento de receita de que tratou Alfred Schultz, que disse que o homem moderno sabe

apenas o suficiente para poder se mover sem dificuldade na vida social. Os intelectuais possuem uma especial variedade de ‘conhecimento de receita’: sabem o imprescindível para poder tratar com outros intelectuais. Há um ‘conhecimento de receita’ para tratar sobre a Modernidade em círculos intelectuais; o indivíduo tem que saber repetir um certo número de frases feitas e esquemas interpretativos, aplicá-los na ‘análise’ ou na ‘crítica’ dos novos aspectos que possam surgir na discussão e, desse modo, autentificar sua participação no que nestes círculos se definiu coletivamente como realidade (…).

Com o turista acontece a mesma coisa. Quando chega de volta a casa, ele tem que falar com seus iguais sobre sua viagem e sobre as coisas que viu e sobre as sensações que viveu e sobre os pratos que comeu e sobre os monumentos que tocou e… uma infinidade de must does. Tantos são que não não há como sabê-los todo de antemão sem que haja uma orientação de aonde ir, onde ficar, por onde passar, o que fazer, como agir. Os guias turísticos são o livro didático básico do turista que quer voltar a casa e ter assuntos sobre os quais falar.

* * *

E, a partir daqui, eu começo a falar da importância dos guias turísticos na condução do turista e coisa e tal. Mas isso é assunto para outro post.


1: Para fins didáticos, neste post “turismo”, com letra minúscula, será aquele da definição da Organização Mundial do Turismo (UNWTO) que reza que é um fenômeno social, cultural e econômico gerado pelo movimento de pessoas a países ou lugares fora do seu ambiente costumeiro com objetivos pessoais ou de negócio (UNWTO, 2015). Quando aparecer “Turismo”, com letra maiúscula, será o estudo de tal fenômeno.
2: Essa parte é um pequeno trecho do meu referencial teórico sobre as imagens da cidade turística. Depois de 7 anos, eu vi que eu preciso refazer este texto! Dei uma editada porque nem tudo lá interessava a este post e os parágrafos não estavam uma maravilha. Na tese eu prometo que o resultado será melhor! 😉

Referências:

Berger, P. L., Kellner, H., Berger, B., & Abril, J. G. (1979). Un mundo sin hogar:(modernización y conciencia). Santander: Sal terrae.
Camuset, F. (1975). Concentration ou étalement? Plaidoyer pour la survie des vacances. Aix-Marseille: Université d’Aix-Marseille.
Cohen, E. (2001). Authenticity and commoditization in tourism. Annals of Tourism Research, 15, pp. 371-386.
Galí, N, & Donaire, JA. (2006). La imagen percibida por los turistas de la ciudad de Girona. Estudios turísticos, 168, 123-139. Madrid: Ministerio de Industria, Turismo y Comercio.
Graburn, N. (1989). Tourism: The sacred journey. In: V. Smith. (ed.), Hosts and guests: The anthropology of tourism (cap 1). Philadelphia: University of Pennsylvania Press (2 ed).
Krippendorf, J. (2001). Sociologia do Turismo: Para uma nova compreensão do lazer e das viagens (2 ed). São Paulo: Aleph, 2001.
Plog, S. (1974). Why destination areas rise and fall in popularity. Cornell Hotel and Restaurant Administration Quarterly, (14, 4), pp. 55-58.
Plog, S. (2001). Why destination areas rise and fall in popularity: An update of a Cornell Quarterly Classic. Cornell Quarterly Classic, (42), pp. 13-24.
Urbain, J-D. (1993). L’idiot du voyage: Histoires de touristes. Paris: Petite Bibliothèque Payot.
United Nations World Tourism Organization [UNWTO]. (2015). Understanding Tourism: Basic Glossary. Retrieved April 13, 2015, from http://media.unwto.org/en/content/understanding-tourism-basic-glossary

2 comments

  1. Sabrina says:

    😉

  2. Sandra B. says:

    Acho bem, bem o texto.
    O tema da tua dissertação é ótimo!
    Enhorabuena!

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