Conceitos Básicos de Turismo, 01: O que é Turismo?

Há alguns dias saiu uma notícia sobre um grupo de pessoas que se está articulando para estabelecer um trem entre os estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro com o intuito de atrair turistas para a região. O projeto, que está sendo desenvolvido sob o nome de ‘Expresso Trem da Terra’, está sob os auspícios de uma Oscip chamada Amigos do Trem e o passeio deve passar pelas cidades mineiras de Cataguases, Recreio, Leopoldina, Volta Grande, Além Paraíba e Chiador e pelas fluminenses de Sapucaia e Três Rios. Já há, inclusive, locomotivas que rodarão nos fins de semanas e feriados.

Essa notícia me fez pensar que um bom tema para voltar a escrever aqui no blog seria falar sobre a importância de entender os conceitos básicos do Turismo. A disciplina sempre foi muito desmerecida por quem não a conhece de perto, mas sinto que urge uma atenção e um cuidado maior por parte de quem trabalha e vive dela. Assim que eu achei que seria uma boa ideia começar uma série de Conceitos Básicos de Turismo! E, para começar a série CBT, entendo que o melhor seja mesmo começar com a pergunta mais básica da disciplina: o que é Turismo?

Essa perguntinha besta que parece simples é o terror da turismologia. Segundo alguns estudantes de Geografia e Geologia com quem compartilhamos o Instituto de Geociências lá na Universidade Federal de Minas Gerais diziam que “Turismo é assunto de boteco” (futuros geógrafos e geólogos, 2002). É uma definição bastante concisa e clara, mas acho que não serve muito para desenvolver nossos estudos. Talvez seja melhor fazer um passeio pelas diversas definições que muitos estudiosos de Turismo apresentaram.

Acho que o mais normal seria começar com a definição proposta pela Organização Mundial do Turismo… Para a OMT (2015),

Tourism is a social, cultural and economic phenomenon which entails the movement of people to countries or places outside their usual environment for personal or business/professional purposes. These people are called visitors (which may be either tourists or excursionists; residents or non-residents) and tourism has to do with their activities, some of which imply tourism expenditure.

Simples, né? Fala mesmo das principais características do fenômeno: deslocamento, contato sócio-cultural-econômico, diferenciação entre quem dorme e quem não… Contudo, parece-me simples demais. Vejamos outras mais robustas.

(Começar com a definição da OMT pode até parecer clichê, mas é melhor do que o que Neil Leiper (1979, p. 391) que começou com uma definição de dicionário. :P)

Ainda lá em meados do século passado, Neil Leiper (idem) fez uma recompilação das diversas definições de Turismo elaboradas até então. A primeira delas, a Econômica, é muito restritiva, como podemos ver nas palavras de Robert McIntosh:

Tourism can be defined as the science, art and business of attracting and transporting visitors, accommodating them and graciously catering to their needs and wants.

Turismo como ciência ou arte parece-me uma forçação de barra muito grande, né? Além disso, todo o aspecto sócio-cultural fica de fora e soa um pouco a servicialismo nesse graciously catering. Gostei não.

Outra que eu gostaria de destacar, ainda que bastante falha, é do grande Jafar Jafari, para quem

Tourism is the study of man away from his usual habitat, of the industry which responds to his needs, and of the impacts that both he and the industry have on the host’s socio-cultural, economic and physical environments.

É uma definição interessante, mas ele chama Turismo de indústria (também tema para outro dia) e falta falar de distância, duração e da origem. Para

Para Neil Leiper, uma boa definição de Turismo tem que levar em conta alguns elementos fundamentais: o Humano, o Geográfico, os Recursos Disponíveis e o Industrial. Ao discorrer sobre tais elementos e sobre a importância que eles têm numa definição de Turismo, ele chega à conclusão de que Turismo é

the system involving the discretionary travel and temporary stay of persons away from their usual place of residence for one or more nights, excepting tours made for the primary purpose of earning remuneration from points en route. The elements of the system are tourists, generating regions, transit routes, destination regions and a tourist industry. These five elements are arranged in spatial and functional connections. Having the characteristics of an open system, the organization of five elements operates within broader environments: physical, cultural, social, economic, political, technological with which it interacts.

Bastante completa, pois trata do deslocamento tanto no espaço como no tempo, da cadeia produtiva que envolve aspectos físicos, culturais, sociais, econômicos, políticos e tecnológicos e exclui aqueles viajantes que se deslocam para receberem remuneração ao longo do caminho.

Outro autor que se debruçou sobre as definições de Turismo foi Stephen Smith (1988) que começa seu artigo dizendo que o que não falta é respostas para a pergunta fundamental da disciplina. Ele até mesmo comenta que a “Lieper’s expressed purpose for this definition is as ambitious as the definition is long”. Não vejo problemas com uma definição ser longa – ela deve ter o tamanho que for necessária para explicar tudo que precisa ser explicado. O seu artigo, contudo, busca uma definição muito específica para Turismo: a visão do lado da oferta. Para ele, então,

The definition states simply that tourism -as an industry- is the aggregate of all retail businesses that produce commodities fin the traveler, regardless of his motivations or other personal characteristics.

Não… Muito específica demais da conta. Outros autores também buscam definições para partes concretas do Fenômeno, como Richard Butler (1999) faz com sua revisão do estado-da-arte do Turismo Sustentável. Ou, então, Brian Garrod e Alan Fyall (2000) que buscam definir o que é Turismo de Patrimônio. Ou Donald Getz (2008), que faz o mesmo com Turismo de Eventos.

Tudo isso dito, contudo, acredito que o melhor é amparar-se na constatação de Stephen Smith quando ele evidencia a grande quantidade de respostas para uma pergunta aparentemente simples. Diz que Henri Poincaré afirmava que enquanto as ciências naturais tratam dos resultados, as ciências sociais falam sobre seus métodos. E o Turismo, social como é, deve direcionar seus esforços em fazer boas perguntas. Outra maneira de dizer isso pode ser encontrada na voz de Shevek, protagonista da novela ‘The Dispossessed: An Ambiguous Utopia’ de Ursula K le Guin (1974):

It is not the answer we are after, but only to ask the question…

O negócio é que eu acredito nas belas palavras do Deep Thought, o grande computador que processou a reposta para a Vida, o Universo e Tudo Mais no livro ‘The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy’ do Douglas Adams (1980):

I think the problem, to be quite honest with you, is that you’ve never actually known what the question is. (…) So once you know what the question actually is, you’ll know what the answer means.

Assim que o pesquisador de Turismo deve-se preocupar nas maneiras de fazer as perguntas. A mais básica, O que é Turismo?, é também a mais complexa e dá margem a infinitas respostas que dependem fundamentalmente de quem a faz, como a faz, quando a faz, onde a faz, por que a faz. Pergunte-se o que é Turismo e construa a sua própria definição.

 

Referências:

Adams, D. (1980). The hitchhiker’s guide to the galaxy. New York: Harmony Books.
Butler, R. W. (1999). Sustainable tourism: A state‐of‐the‐art review. Tourism geographies, 1(1), 7-25.
Garrod, B., & Fyall, A. (2000). Managing heritage tourism. Annals of tourism research, 27(3), 682-708.
Getz, D. (2008). Event tourism: Definition, evolution, and research. Tourism management, 29(3), 403-428.
Le Guin, U. K. (1974). The dispossessed: An ambiguous Utopia. New York: Harper & Row.
Leiper, N. (1979). The framework of tourism: Towards a definition of tourism, tourist, and the tourist industry. Annals of tourism research, 6(4), 390-407.
OMT. (n.d.). Understanding Tourism: Basic Glossary. Retrieved November 12, 2015, from http://media.unwto.org/en/content/understanding-tourism-basic-glossary
Smith, S. L. (1988). Defining tourism a supply-side view. Annals of Tourism Research, 15(2), 179-190.

2 comments

  1. Allan says:

    Muito bom!

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