Turismo e a Paz Mundial

Eu sempre falei para as (poucas) pessoas que eu orientei em trabalhos acadêmicos que as hipóteses estão aí nessa vida para serem confirmadas ou refutadas, que é desonestidade intelectual mudar a sua hipótese antes de entregar o trabalho para que ela fique de acordo com o resultado final e patati-patatá. E eu sempre estava dizendo o que eu penso. Contudo, e só hoje pensei nisso, eu nunca tinha feito nenhum trabalho cuja hipótese fosse refutada no final. Talvez porque, sempre que eu me punha a fazer algum trabalho, já tinha uma certa noção do que viria pela frente e, portanto, minhas hipóteses já nasciam por conta desses estudos prévios. Ou talvez porque meus trabalhos são enviesados. Não sei. Eles estão aí públicos para questionamentos.

O negócio é que este fim de semana eu comecei a pensar numa coisa que eu queria estudar e já tinha a hipótese na cabeça. Após os atentados de Paris, queria ver o que já fora escrito sobre Turismo e a Paz Mundial e logo criei na minha cabeça a hipótese de que o Turismo favorece a Paz nos lugares onde acontece. Apesar da minha introdução meio que delatar que eu cheguei a uma conclusão que nega a hipótese, eu vou mostrar o caminho da rápida pesquisa do mesmo jeito.

Comecemos como sempre, dando uma volta pelo site da Organização Mundial de Turismo. Lá (UNWTO, 2015), vê-se que já em 1963, por iniciativa das International Union of Official Travel ‎Organisations, a OMT se encontrou em Roma e, entre outras coisas, declarou que

tourism is a basic and most desirable human activity deserving the praise and encouragement of all peoples and all governments.

Ainda, e de acordo com a IUOTO (1974),

This Conference [Rome, 1963] also recognized
 the important role played by tourism in strengthening national economies, stimulating international trade, and promoting international goodwill and understanding.

Jafari (1989, p. 439) nos comenta, ainda sobre a OMT, que

the [1980 Manila] Declaration [of the World Tourism Organization] stressed that the very existence of tourism depends on peace. Beyond its economic impacts, tourism is potentially a significant vehicle for promoting understanding, trust, and goodwill among peoples of the world.

O ano de 1988 é chave para a Academia ligar o Turismo e a Paz Mundial. Em Vancouver, no Canadá, acontece a 1ª Conferência Global do International Institute for Peace Through Tourism, liderada, principalmente, por D’Amore (poético, né?) e por Jafari. Enquanto o segundo é um dos máximos expoentes na teoria do Turismo, o primeiro é o guru do combinado Turismo+Paz. No final dos 1980, ele escreveu vários artigos sobre o tema, sempre de maneira muito otimista em relação à casualidade Paz-pelo-Turismo. Num pequeno paper sobre suas notas de pesquisa, ele afirma que o

Tourism, properly designed and developed, can help bridge the psychological and cultural distances that separate people of diverse races, colors, religions, and stages of social and economic development. Through tourism, we can come to appreciate the rich human, cultural, and ecological diversity of the world mosaic and to evolve a mutual trust and respect for one another and the dignity of all life on earth. (D’Amore, 1988a, p. 270)

Num outro artigo, baseado no anterior e publicado no mesmo ano, D’Amore estabelece uma relação entre o Turismo e a Diplomacia entre países quando comenta que

William D. Davidson and Joseph V. Montville defined the official channel of governmental relations as ‘track one diplomacy’ and the unofficial channel of people-to-people relations as ‘track two diplomacy’. (…) Tourism operates at the most basic level of ‘track two’ diplomacy by spreading information about the personalities, beliefs, aspirations, perspectives, culture and politics of the citizens of one country to the citizens of another. (D’Amore, 1988b, p. 153)

Para ele, portanto, o Turismo é uma das causas para a Paz. O contato e a troca entre turistas e locais é um dos passos para o fim das animosidades entre os povos. D’Amore nos lembra que uma das bases da Comunidade Econômica Europeia (precursora da União Europeia) era a livre circulação de pessoas numa esperança de que, se os diversos povos se visitassem e se conhecessem, a possibilidade de futuras guerras seria diminuída. Por fim, louva as benfeitorias que o Turismo traz para a preservação do meio-ambiente e das culturas – todos aqueles argumentos da panaceia turística que nós conhecemos.

Ainda falando da mesma conferência [Vancouver, 1988], temos as contribuições de Goeldner (1989, p. 167), por exemplo, que relembra que o ano de 1967 (já longínquo em 1988 e que, agora, parece pré-histórico) foi escolhido pela ONU como o Ano Internacional do Turismo com o slogan ‘Tourism: passport to peace’. Também destacou as palavras do (então) governador do estado americano de Ohio (idem) naquela conferência de Vancouver um ano antes:

tourism can be the first peace industry. It has all the right constituent parts. But to be successful it must … do more than move people from place to place. It must move them from an understanding of what is to an understanding of what can be.

Também Jafari foi um dos idealizadores da Conferência de 1988 e ele nos conta que, ao final do evento, chegou-se ao consenso quanto a uma carta que, entre outras coisas, dizia que

The First Global Conference on Tourism – A Vital Force for Peace which convened in Vancouver, Canada;

(…)

Asserts that tourism is a fundamental human activity involving social, cultural, religious, economic, environmental, educational, and political values and responsibilities;

Expresses the urgent reality that peace is an essential precondition for tourism and all other aspects of sustainable human growth and culture development;

(…)

Reinforces the hope that tourism will nurture conditions through which people can coexist, share their beliefs, appreciate each other’s cultures, and develop friendships;

(…) (Jafari, 1989, p. 441)

Acho que já deu para perceber que quem foi a esta Conferência saiu de lá com a certeza de que o Turismo pode sim ajudar a trazer a Paz mundial. Mas, mesmo aqui, já podemos ver que os apoiadores do Paz-pelo-Turismo já escorregavam porque na carta eles expressam que a Paz é uma pré-condição essencial para o Turismo. Isso não é Paz-pelo-Turismo; é Paz-Para-o-Turismo.

Ainda assim, eles influenciaram muita gente, como, por exemplo, Askjellerud, que chega à conclusão que

the tourist contributes to fostering peace through tourism if and when he or she owns the kind of attitude which considers the Other as an opportunity for emotional growth, and the encounter with the Other is managed in a non- violent way. (Askjellerud, 2003, p. 746)

Ou Var, Brayley e Korsay (1989), que se queixam que o Turismo sempre aparece sob a luz condenatória dos problemas sociais e que raramente é visto com olhares positivos (e, talvez, inocentes) de um benefício social que pode promover uma variedade de condições humanas vantajosas, nas que eles incluem a Paz mundial. Mesmo Kim e Prideaux (2003) que, num princípio, mostram um certo ceticismo quanto à capacidade do Turismo de promover a Paz e a compreensão entre os povos, se entregam às ideias de Butler e Mao (apud idem) para os quatro estágios de normalização do Turismo:

The process commences at the point where there is very little contact and evolves into a relationship that can be described as normalised. The stages proposed were: (1) zero-tourism stage; (2) visit friends and relatives (VFR) tourist stage; (3) middle stage; and finally (4) the mature stage. (Kim & Prideaux, 2003, p. 676)

Daí que eu comecei a perceber um padrão nas análises: tudo era muito bonito para ser verdade. O artigo que me despertou para isso foi o do Ap & Var quando eles dizem que

World peace is an intangible attribute and the impact of tourism on world peace is a difficult concept to quantify. (Ap & Var, 1990, p. 267)

Um artigo de Anson que trata sobre a influência da violência no Turismo na Irlanda do Norte mostra que as coisas são bem mais complicadas. Analisando uma pesquisa de Wall (1996, apud Anson, 1999) com americanos nos anos 1980 em que fica claro que menos da metade dos entrevistados estaria disposta a viajar para fora do país após um atentado terrorista, Anson comenta

He [Wall] goes on to speculate that while some travelers may postpone their visit to a destination experiencing civil unrest, it is more likely that the holiday location will be changed to a safer place. However, this would depend on the market segment, as business travelers and those visiting friends and family would be less likely to change their original plans. (Anson, 1999, p. 57)

Ainda sobre as debilidades do Turismo no pós-conflito, Anson concorda com O’Neill (1997, apud Anson, 1999) quando sugere que

using tourism as an engine for development in postconflict peace building means it is particularly vulnerable to post-cease-fire hiccups and that a return to politically motivated violence means there is no fuel, that is, tourists, to run the engine of a successful tourism economy

Entretanto, o artigo que realmente me fez mudar de opinião e concordar que o Turismo não pode contribuir para a Paz mundial foi o Tourism, The world’s peace industry? de Litvin. Ele é assertivo quanto à falha metodológica dos defensores do Turismo como criador de Paz.

It is my belief that the ‘tourism creates peace’ camp has a serious problem with the basic research axiom that distinguishes between co-relational and causal relationships. Does tourism create peace or is tourism, along with many other industries, a fortunate beneficiary of peace? This article argues that the latter is true. (Litvin, 1988, p. 63)

Ele comenta que muitas das benesses que os acadêmicos pró-Paz-pelo-Turismo expõem deveriam ser, na verdade, relacionadas não com o turista, mas com o viajante. Enquanto eu lia, pensei que isso era apenas um excessivo zelo pelos conceitos e parece que ele me escutou, pois disse logo em seguida que “this is a semantic difference, perhaps, but in tourism literature this can create a major chasm” (idem, p. 64). Tive que concordar com ele e o seguinte parágrafo é deveras esclarecedor:

A vast body of tourism literature argues the negative social, cultural, environmental, and economic impacts of tourism (versus travel). These discussions go beyond the scope of reference for this article. However, if we are looking for tourism to be the guiding light of peace at the same time the industry focuses on numbers (if not in spirit then certainly in actuality), then often creating a product in which the ‘chance for real human contact between holiday makers and locals could hardly be less hopeful’ (Krippendorf, 1990, p. 58). If tourism has in many cases been reduced to ‘museumization’ (MacCannell, 1976), and if tourists often visit destinations within the comforts of mass tourism’s environmental bubble’ (Cohen, 1995), then how can we expect tourism to create understanding, let alone peace? (idem, ibidem)

Para ele, interações e compartilhamentos podem acontecer entre viajantes e autóctones, mas não é possível acontecer um entendimento real entre turistas e locais. Ainda: citando os conceitos de Plog (1991, apud idem e que vocês podem relembrar num outro post do blog aqui) e Cohen (1995, apud idem), Litvin conclui que

The problem with relying on travelers to be change agents in this tumultuous world is that they visit in very small numbers and abandon a destination before the mainstream tourists arrive. (idem, ibidem)

Ele, então, propõe três pontos para consideração (idem, ibidem):

  1. O Turismo é claramente um beneficiário da Paz, mas nunca acontece na ausência dela – portanto, não pode gerá-la;
  2. O Turismo, mais que protetor da estabilidade, pode ser hostilizado em tempos de relativa Paz, causando degradação do processo de Paz; e
  3. O Turismo pode regenerar quando a Paz volta, mas isso não implica que ele a crie. Na verdade, isso mostra a resiliência da indústria turística.

E eu não consigo pensar numa melhor maneira de acabar essa verborréia teórica (será que chamar de ‘ensaio’ ficaria melhor?) do que com as próprias palavras conclusivas do Litvin (idem, p. 66):

Tourism, as a social science, is often subject to healthy and lively debate. But within the context of debate, we, as tourism academics, must not forget to remain true to our standards and must demand of ourselves the same rigor we expect of other disciplines.

It is my opinion that tourism proponents who overlook the important distinction between co-relation and causality when discussing peace and tourism are guilty of overglamorizing the industry and of championing arguments that simply do not ring true when viewed objectively in the light of history.

Talvez, as palavras de Carl Sagan (1990) também sejam interessantes para pensarmos que devemos sempre nos ater aos fatos e não aos nossos achismos:

Science is much more than a body of knowledge. It is a way of thinking. Science invites us to let the facts in, even when they don’t conform to our preconceptions.

Sejamos honestos academicamente – e no resto da vida também.

 

Referências:
Anson, C. (1999). Planning for peace: The role of tourism in the aftermath of violence. Journal of Travel Research, 38(1), 57-61.
Ap, J., & Var, T. (1990). Does tourism promote world peace?. Tourism Management, 11(3), 267-273.
Askjellerud, S. (2003). The Tourist: A Messenger of Peace? Annals of Tourism Research, 30(3), 741–744.
D’Amore, L. J. (1988a). Tourism — A vital force for peace. Annals of Tourism Research, 15(2), 269–270.
D’Amore, L. J. (1988). Tourism — a vital force for peace. Tourism Management, 9(2), 151–154.
Goldner, C. R. (1989). Tourism — a vital force for peace. Tourism Management, 10(2), 166–168.
International Union of Official Travel ‎Organisations IUOTO. (1974). Tourism, Its nature and significance. Geneva.
Jafari, J. (1989). Tourism and peace. Annals of Tourism Research, 16(3), 439-443.
Kim, S. S., & Prideaux, B. (2003). Tourism, peace, politics and ideology: Impacts of the Mt. Gumgang tour project in the Korean Peninsula. Tourism Management, 24(6), 675-685.
Litvin, S. W. (1998). Tourism: The world’s peace industry?. Journal of Travel Research, 37(1), 63-66.
Sagan, C. (1990). Why we need to understand science. Skeptical inquirer,14(3), 263-9.
Var, T., Brayley, R., & Korsay, M. (1989). Tourism and world peace: Case of Turkey. Annals of Tourism Research, 16(2), 282-286.
World Tourism Organization UNWTO. (n.d.). History. Retrieved November 16, 2015, from http://www2.unwto.org/content/history-0

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